R$ 18 mil não valem nada no país do curralzinho

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por Anna Ramalhoanna-ramalho-jornalista


Uma semana que começa com uma ex-primeira dama se queixando que não pode viver com uma pensão de R$ 18 mil não pode prestar, certo? Dois dias depois, leio que o tal Wieder que substituiu o degolado Demóstenes recebeu os mesmos R$ 18 mil para trabalhar por um dia. Botou o nome na porta do gabinete de senador  e se mandou, porque, afinal, ele também é filho de Deus, né, não? Saiu em férias para curtir seu primeiro recesso parlamentar, outro absurdo do nosso país.

Já aqui pro meu lado, o lado da trabalhadora do Brasil que não fatura essa quantia toda ainda que se arrebente de trabalhar, só chegaram as guias dos extorsivos impostos que pago mensalmente para a micro-empresa – e bota micro nisso!!! – que tenho. É uma loucura o que se paga de impostos nessa cidade, nesse estado, nesse país. Um roubo em face do que nos é oferecido.

Dá ódio e vergonha. E muito o que pensar neste período pré-eleitoral, onde tudo nos é prometido mais uma vez. Depois que sentam na cadeira do poder, a gente sabe o que acontece.

***

A semana já terminava quando pipocou o escândalo envolvendo o ator Marcelo Faria – o bonitão que vive um papel encantador na novela das seis. O rapaz agrediu um segurança na casa de shows Miranda porque não tinha direito ao curralzinho vip, essa maldição dos tempos modernos. Como testemunha do fato – real e de direito – o ensaísta, pensador e compositor Francisco Bosco, que acabou a noite na delegacia apoiando o agredido.

Dá o que pensar essa história e, pra mim, tem a ver com essa cultura da celebridade que tudo pode e nada deve. Marcelo e Francisco são da mesma geração – o primeiro nasceu em 1971, o segundo, em 1976. Ambos são filhos de celebridades: Marcelo, de Reginaldo Faria;  Francisco, de João Bosco. Foram, portanto, criados no meio de famosos. Mas num tempo diferente. Reginaldo foi protagonista de “Vale Tudo”, o maior sucesso em novelas de todos os tempos, e nunca teve postura de starlet – porque naquele tempo o culto às celebridades era bem mais ameno. Lembro perfeitamente de ter conhecido o pequeno Marcelo em companhia dos pais – a mãe é a psicóloga Katia Achcar – em casa do meu amigo Alberto Reis, numa época em que Reginaldo era o galã de “Água Viva”, outro dos sucessos de Gilberto Braga. Ele estava na piscina da casa em São Conrado, onde outros famosos da época batiam ponto, na maior tranqüilidade, brincando com o filho e interagindo normalmente com os demais convidados. Não havia paparazzo nas redondezas, nem qualquer convidado pensou em importuná-lo com fotos e autógrafos.

Marcelo e Francisco são famosos. Um na tela, outro, nas letras. Mas quanta diferença de postura! É triste este tempo de celebridades, tão bem retratado por Woody Allen em seu novo filme “Para Roma com amor”. Acho que Marcelo foi vítima da combinação letal do star system com excesso de bebida e já está pagando caro por isso. Lembro do garotinho que conheci há tantos anos e tenho pena.

Penso com orgulho no Francisco, que não conheço pessoalmente. É preciso caráter e vergonha na cara para comprar uma briga desse tamanho.

Penso também que, pelo andar da carruagem, esse culto excessivo às celebs da hora só tende a se agravar. Lamentável.

***

Tantos anos depois ainda ouço “Covarde sei que me podem chamar, porque não trago no peito esta dor”, música cheia do sambalanço de Ed Lincoln que animava os arrasta-pés nos doces e saudosos dias da minha adolescência. Tomara que minha neta tenha um Ed Lincoln para marcar os dias que ainda virão para ela – aqueles que a gente não esquece jamais. Arrasta-pé dá de dez em curralzinho vip.


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do site www.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.

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Sobre a Anna Ramalho

Anna Ramalho, carioca, tricolor e mangueirense, é colunista e cronista. Na definição do ex-chefe Ricardo Boechat, “o dinossauro do colunismo social”, já que, nos últimos 35 anos, trabalhou com todos os grandes: Zózimo Barrozo do Amaral, Fred Suter, Carlos Leonam, Fernando Zerlottini e o próprio Boechat, alternando-se entre “O Globo”, “ O Dia” e o “Jornal do Brasil”. Noves fora Ibrahim Sued, com quem trabalhou no livro “Ibrahim Sued: 30 anos de reportagem”.

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