Bibi é a maior!

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por Anna Ramalhoanna-ramalho-jornalista


Que me perdoem as Fernandas, mãe e filha, a bela Tonia, as grandes Marieta e Andréa,  Nathalia e Eva,  Jimenez e Ana Beatriz, Rosamaria e Holtz e Arlete e Raia ( que brilha em “Cabaré”) e outras tantas que certamente esqueci – um naipe e tanto do que há de melhor na arte de representar – mas a diva absoluta dos palcos, em minha modesta opinião, é Bibi Ferreira.

Fui assistir ao seu espetáculo, sábado passado, em companhia de meu amigo querido Bernardino, aniversariante do dia, mas quem ganhou o presente fui eu. Fiquei deslumbrada. Aliás, ficamos todos. O público reverenciava a artista com o silêncio necessário para que ela nos transportasse a todos naquela viagem musical e quebrava-o, minutos depois, com aplausos e incontidos gritos de bravo!, maravilhosa!, poderosa!

Ela é mesmo poderosa e maravilhosa. Aos inacreditáveis 90 anos, como foi  aos 40, quando a vi pela primeira vez encarnando a Eliza Doolittle em “My Fair Lady”.

***

Tenho até hoje registrada na memória a ida da família ao teatro. Foi uma cena, como sempre acontecia com as saídas coletivas da turma. Vovó, mamãe, a mana e eu, se não me engano nossa vizinha, a Lecy, com a filha Cristina. Não estou certa disso, mas lembro perfeitamente do táxi preto, daqueles antigões, que pegamos na Rua Dias da Rocha, onde morávamos, em Copacabana, para desembarcar na Praça Tiradentes, onde fica o Teatro João Caetano. Na época, eu tinha 12 pra 13 anos, e a mana, 9 ou 10. Nos instalamos numa frisa, todas no maior ouriço, para assistir àquela que mamãe já dizia ser a maior artista do Brasil. Mamãe era encantada com a Bibi, conhecia a mãe dela não sei de onde, era revoltada porque o Colégio Sion não aceitara a Bibi porque ela era filha de pais separados e achava um show uma mulher que podia cantar em qualquer idioma sem sotaque.

Como me lembrei dela, sábado, no antigo Teresão ( o Teatro Net, aliás, está um espetáculo!).  Chorei várias vezes durante aquela mágica hora e meia. Enquanto, do palco, Bibi recordava seus sucessos, da minha poltrona eu recordava todas as vezes em que estive nas suas platéias – desde a primeira inesquecível vez em que a vi ao lado do grande e saudoso Paulo Autran no palco do João Caetano.

Bibi em “Gota d´Água”. Quem viu não esquece jamais. Bibi em “O homem de La Mancha.”  Bibi encarnando Amália Rodrigues. “Bibi in concert”. Bibi “Piaf.” Quem pode esquecer da Piaf de Bibi?  É uma atriz que canta, dança e sapateia. Tem absoluta segurança cênica, além de memória prodigiosa: ela não consulta letras de música e canta todas sem errar nem uma vez. Nem de longe aparenta os 90 anos recém-completados. Chique no pretinho básico mas com brilhos, braços à mostra, está muito bem. No palco, iluminação perfeita, orquestra impecável,  não tivesse o show a própria Bibi como diretora.

Há coisa de três anos, estive com ela em Ouro Preto. Bibi encarnaria Piaf mais uma vez no Ano da França no Brasil. Nos encontramos rapidamente na casa do prefeito da cidade, meu querido Ângelo Oswaldo, onde eu estava hospedada. Era um coquetel no qual deu apenas uma passadinha. Esta extraordinária artista é tão profissional que não toma sereno e fica em silêncio nas vésperas de cada apresentação. Passou rapidinho e correu para o hotel, onde ficou até a hora do show em praça pública. Que eu não pude assistir porque tomei um tombo na véspera, quebrei o pé, e tive que voltar pro Rio às pressas.  Ódio!!!! Foi um senhor espetáculo o que perdi.

***

Mas vou à forra. Neste domingo, volto ao Teresão. Resolvi levar minha Bela Antonia para ver a Bibi. Porque quero rever o espetáculo e porque acho que é papel das avós contribuírem para a cultura de seus netos nesses tempos em que todos só querem viver em torno dos tablets da vida enquanto os pais trabalham furiosamente.  Bibi Ferreira é a maior atriz viva da História do Brasil. Assistir ao seu brilhante e comovente desempenho no palco, aos 90 anos, inteiraça de corpo e de voz, é um dos legados que faço questão de deixar para a minha neta.

***

Mais uma vez graças ao You Tube, nosso cantinho musical traz  uma palinha de Bibi Ferreira.


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do site www.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.

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Sobre a Anna Ramalho

Anna Ramalho, carioca, tricolor e mangueirense, é colunista e cronista. Na definição do ex-chefe Ricardo Boechat, “o dinossauro do colunismo social”, já que, nos últimos 35 anos, trabalhou com todos os grandes: Zózimo Barrozo do Amaral, Fred Suter, Carlos Leonam, Fernando Zerlottini e o próprio Boechat, alternando-se entre “O Globo”, “ O Dia” e o “Jornal do Brasil”. Noves fora Ibrahim Sued, com quem trabalhou no livro “Ibrahim Sued: 30 anos de reportagem”.

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