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Rainha Elizabeth: the English rose

por Anna Ramalhoanna-ramalho-jornalista


Comprei uma rosa branca e botei aos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima, em seu dia, 13 de maio – que, este ano, caiu no Dia das Mães. A rosa – acredite quem quiser – durou 10 dias, aberta, esplendorosa, uma coisa incrível. As que comprara para o retrato de mamãe já tinham morrido há dias. Aquela, a da santa, nem despetalou – qual a camélia da marchinha, deu um suspiro e depois morreu. Vergou no caule, mas morreu inteira.

Lembrei da rosa branca quando vi a Rainha Elizabeth, de branco, naquela bela e imponente procissão marítima pelo Tamisa. Não pensei nela morta em nenhum momento, que fique claro. Ela me lembrou a rosa apenas em seus momentos de esplendor. Elizabeth II é a verdadeira “English rose”. Com que dignidade e elegância ela se portou em tantas e tão merecidas homenagens que, obviamente, lhe tocaram o coração. Mas, ao contrário de nós, os latinos, sempre com as emoções à flor da pele,  suas lágrimas de alegria brotaram quase a contragosto, envergonhadas, porque desde menina a rainha sabe que não pode chorar em público, nem gargalhar, nem falar alto. A nobreza é assim e a sua Inglaterra é assim. Por mais que a globalização insista em se imiscuir e tantas vezes esculachar, no reino de Sua Majestade o comportamento esperado é este. Contido, recatado, digno.

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Meu pai morou em Londres, por 12 anos, quando no Itamaraty. Mamãe contava coisas que ele contara para ela. Como, por exemplo, que lá os velórios não eram como cá, onde qualquer um pode entrar na capela mortuária. Lá, a família do morto mandava ( creio que hoje talvez não seja mais assim) convites manuscritos a cada amigo que gostaria de ver na triste ocasião. As exigências com a pontualidade; o dress code que era imposto; o inevitável chá das cinco, seja verão ou inverno;  a comida insuportável – segundo papai, só era bonita antes de entrar na panela. Ele morou lá na época da guerra. Hoje a história é outra. Londres tem grandes restaurantes, é dos lugares onde se come melhor no planeta, mas, no que tange à vida em sociedade,  certos ritos permanecem, tão imutáveis quanto a Union Jack.

Adoro a Inglaterra e acho a Rainha Elizabeth o máximo! Usa aquelas roupas que só ela pode usar, aquele penteado que jamais mudou, os chapéus alegóricos,  e embasbaca a plebe rude mundial com suas jóias poderosíssimas. Ama os animais, vive cercada por seus cachorros, o que já mostra que é mulher de caráter e coração – aliás, desconfio, que todos os chamegos que ela não pode dar aos humanos ( ainda que sejam de sua real família) ela dá aos bichinhos. Tenho certeza de que ela conversa com eles. Já com o Phillip…

Outra observação do meu pai: as crianças, em sua maioria, eram lindas quando bebês. Cresciam muito feiosas. Se olharmos o Príncipe Charles, veremos que o velho tinha razão. Tenho cá minhas dúvidas se a Duquesa da Cornualha, a Camilla, algum dia tenha sido um belo baby. Anyway: mesmo os príncipes  William e Harry eram mais bonitos quando criancinhas. O primeiro está careca, o segundo vive do charme ruivo.

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Reinar por 60 anos é uma façanha e tanto. Estou como a maioria dos ingleses torcendo para que Sua Majestade passe o cetro diretamente para o William, que tem a segunda mais bela consorte da história inglesa.  O boboca do Charles perdeu a primeira, Lady Di, que teria sido uma inesquecível rainha.

Enquanto nada disso acontece e nós, aqui, vivemos dias também inesquecíveis, mas por motivos tão pouco nobres, revivo o charme inglês assistindo à magnífica minissérie “Downton Abbey”, que se passa em 1912. Nela, Maggie Smith – esta estupenda atriz – vive uma nobre. Saiu-se com uma frase que é retrato da Inglaterra no capítulo da semana passada, quando chega em Downton Abbey, propriedade do filho, e é informada de que o jovem hóspede com quem jantara na véspera, um diplomata turco, morrera durante a noite ( e depois de ter deflorado a neta da velha senhora):

“É claro que isso só aconteceria com um estrangeiro. Nenhum “english gentleman” sonharia em morrer na casa de alguém, muito menos na casa de estranhos.”

Nada mais british.

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Não sou inglesa, mas fecho aqui essa crônica pedindo, como seus súditos, que Deus proteja a rainha. Ela merece.


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do site www.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.

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