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A hora da verdade

por Anna Ramalhoanna-ramalho-jornalista


Quem está habituado a me seguir nesse cantinho das crônicas semanais sabe que Dona Dilma não é propriamente “my cup of  tea” – expressão inglesa que adoro e acho finíssima. Especialmente quando usada para falar de nossa presidenta, como ela gosta de ser chamada. Acho-a prepotente, malcriada, e todo dia agradeço a Deus pela bênção de não ter que cruzar com ela no meu dia a dia, como são obrigadas a Ideli e a Gleisi, por exemplo.

Porém, nesses últimos dias, Sua Excelência conseguiu me comover com o discurso durante a instalação da Comissão da Verdade e me deixar com vontade de lhe dar um grande abraço quando, dedo em riste, espinafrou o prefeito insatisfeito com seu quinhão nos royalties do petróleo. Dona Dilma não é bolinho, não. A cena do sujeito sendo enquadrado, que a televisão mostrou, é antológica.

Ela chorou em  seu belo e forte discurso diante dos ex-presidentes e de toda a gente. Não se pode aqui falar em demagogia barata ou lágrimas de crocodilo. Dilma Rousseff apanhou muito, sofreu barbaridades na época negra da ditadura – e não cedeu, não entregou seu companheiros, não traiu. Por isso – e quanto isso representa para todos nós que vivemos aquela época de trevas e porradas! – ela merece todo o meu respeito.

Valeu, presidenta!

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Entrei para a faculdade em 1968 – e quem foi universitário em 1968 sabe a barra que foi estudar e militar. Alguns mais, como Dilma, Gabeira, Vladimir Palmeira, outros menos, como eu e tantos outros da nossa faixa etária. Cursava Jornalismo na PUC e, confiante como sempre fui, achava revigorante, excitante, desafiante a vida sob os pilotis do Edifício Kennedy, a paquera que rolava ali, os lanches no bar das freiras, todo aquele clima de liberdade tão novo pra mim. Custei a perceber que não era uma festa o campus da universidade – àquela altura, a festa para as garotas e garotos de 18 anos, como eu, tinha acabado. O rock, o twist, o hully gully foram substituídos pelos gritos engajados dos compositores que surgiam. As reuniões do DCE da PUC, o Diretório Central dos Estudantes, tomavam o lugar dos arrasta-pés que curtíramos tanto nos anos dourados. “Anos Dourados”, “Anos Rebeldes” – Gilberto Braga mostrou tudo nas duas minisséries.

Nunca fui uma militante das mais engajadas, não vou agora fazer desse relato página de ficção. Participei de algumas reuniões do DCE, aderi a algumas passeatas, mas tive o dissabor de conviver forçadamente com pelo menos dois dedos-duros que identifiquei. Um deles era colega na PUC. Sujeito grande, gordo, com olhar bovino. Nem um pouco ameaçador. Até que, já não me lembro bem como, ficamos sabendo que ele era agente do Dops , infiltrado em sala de aula, para “vigiar” a turma. Depois de um certo tempo, como ali não descobriu ninguém que apresentasse um “perigo ao regime”, sumiu.

O outro encontrei em 1972 , ano em que me formei na PUC, numa inocente excursão pela Europa – minha primeira viagem ao Velho Continente. Era um grupo grande e cruzamos vários países de ônibus. Na viagem – que fiz em companhia da Mana e da Eliane, minha saudosa amiga – fizemos logo amizade com um casal de Pernambuco, ele jornalista tarimbado, Sócrates Times de Carvalho. Outra saudade. Pois bem: um belo dia, numa das fronteiras, os oficiais pediram os passaportes da turma. No que todo mundo apresenta o seu, percebo que um dos companheiros apresentou um passaporte azul. Eu sabia que o passaporte azul daquele tempo em que todos eram verdes significava que seu portador estava em missão oficial. Portanto, concluí com Sócrates, aquele coronel não estava ali para apreciar as ruínas do Coliseu- estava era de olho em algum possível subversivo disfarçado de turista. A partir daí, tomamos cuidado redobrado com o sujeito. Dava medo até de elogiar Versailles ou a Fontana di Trevi. Melhor ficar na moita e com cara de paisagem.

Um dos grande prazeres que tive na vida foi presenciar a frustração deste verme quando o economista Celso Furtado – já exilado na França – foi buscar sua irmã Antonieta, nossa companheira de viagem, quando chegamos a Paris. Celso -que se tornaria um grande amigo anos depois quando casou-se com minha “irmã” Rosa – chegou, pegou as malas da mana e partiu com ela, sem que o milico pudesse fazer absolutamente nada. Era um inimigo da Revolução, mas estava em solo estrangeiro, trabalhando e protegidíssimo como merecia um homem de sua envergadura moral e intelectual.

***

Fiquei emocionada com a festa da verdade em Brasília. Espero e tenho fé que essa Comissão vá trabalhar com afinco para reparar as injustiças, tanto sofrimento para tanta gente, ainda que nada traga de volta à vida aqueles bravos que ousaram se rebelar.

A estes e a todos aqueles que, como Dona Dilma, lutaram pela liberdade, minha gratidão e o meu respeito.


Anna Ramalho é colunista do Jornal do Brasil, criadora e editora do site www.annaramalho.com.br e cronista sempre que pode.

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