por Olga de Mello
A
tire a primeira pedra quem jamais leu um livro de autoajuda. No mínimo passou os olhos por um manual de boas maneiras, jardinagem, cuidados com cães e gatos ou os best-sellers a Vida do Bebê (Agir, R$ 120), do pediatra Rinaldo De Lamare, que sobreviveu ao seu autor, falecido em 2002, e já teve mais de 40 edições desde os anos 1960. Os bebês não mudaram tanto ao longo de meio século, porém suas mães, sim. Talvez esteja aí a chave do sucesso dos livros de autoajuda, que suprem a ausência do aprendizado cotidiano, da experiência transmitida pelos amigos, parentes e conhecidos.
O primeiro livro de autoajuda que li foi Como sobreviver a um amor perdido (Artenova, R$ 9,90 – na Estante Virtual), de Melba Colgrove, que surgiu lá em casa porque meu pai fazia revisão para a editora. Achei divertidíssimo, na época, pois propunha exercícios diários para exorcizar a paixão. No fim da década de 70 apareceram, então, enxurradas de publicações com a fórmula secreta que transformaria o leitor em alguém bem-sucedido em qualquer campo desta e de outras vidas.
A criatividade dos autores de autoajuda me surpreende. Quase todos são PhD em Harvard ou Yale, gurus indianos, médicos, psicólogos, ex-CEOs de corporações importantes, especialistas em marketing ou técnicos de esportes. Bernardinho, autor de Transformando Suor em Ouro (Sextante, R$ 24,90), fala de sua carreira, enquanto oferece motivação para o sucesso em qualquer campo da vida num livro de brilhante desempenho nas listas de mais vendidos. Sem contar os de light business, aqueles cujos conselhos transformarão qualquer empregado de escritório em alto executivo de corporações, há os que prometem movimentar sua vida amorosa, ensinam a educar adolescentes rebeldes, a lidar com a morte, enfim, a se dar bem na vida. Enquanto muitos dos que assinam esses volumes estão em busca do enriquecimento através da venda de seus conselhos, outros parecem querer sinceramente dividir seu conhecimento, como Paul Arden, um mestre da publicidade, que publicou diversos livros, entre eles Não basta ser bom. É preciso querer ser bom (Intrínseca, RS 29,90), que não se restringe a sua própria área quando desconstrói mitos sobre fracasso, criatividade e reputação.
Os clássicos da autoajuda (exceto os espirituais) mesclam doses de história com administração e pretendem impulsionar a mudança de vida do leitor. Enquanto alguns buscam exemplos no mundo dos negócios, outros são contados em forma de parábola, como O Monge e o Executivo (Sextante, R$ 19,90) há anos nas listas de mais vendidos. Entre os primeiros estão Influencie! (Lua de papel, R$ 34,90), de Michael Pantalon, que afirma que a utilização de suas técnicas convence uma audiência em apenas sete minutos. Já oferecendo um método a ser cumprido em um mês, Gail Z. Martin, toma a dianteira na autoajuda em relacionamentos virtuais com 30 dias para arrasar nas mídias sociais (Bestbusiness, R$ 34,90).
Sempre achei que os livros de etiqueta foram os pioneiros na autoajuda, embora o gênero tenha surgido muito tempo depois. A preocupação com a convivência social é tamanha que integra até alguns livros de cunho absolutamente religioso, entre eles a Bíblia. Como etiqueta não existe para complicar a vide de ninguém, ao contrário, algumas ideias são reunidas por Danuza Leão em É tudo tão simples (Agir, R$ 34,90). Em crônicas deliciosas, dirigidas às mulheres de meia-idade, ela apresenta dicas para quem ainda se encontra perplexo com um mundo em que a delicadeza foi expulsa pela velocidade na atualização tecnológica. Desligar celular, falar baixo, ser discreto estão entre as recomendações de Danuza – e servem para qualquer faixa etária ou sexo.
Outro segmento que cresce na autoajuda é o que tenta levar o leitor a vestir-se com um mínimo de bom gosto. Para quem busca o charme que vem de Paris, nada como ter na mesinha de cabeceira A Parisiense – O guia de estilo de Ines de la Fressange (Intrínseca, R$ 49,90). Mesmo as mais apaixonadas pelo despojamento e pela deselegância discreta de nossas meninas tropicalíssimas vão se render à beleza do texto, das ilustrações e da paginação do livro. Afinal, este país deve aos franceses de séculos atrás sua transformação de colônia a reino - e, um pouquinho depois, a ascensão a império e república.
Olga de Mello é Jornalista, carioca, escreve para sites, jornais e revistas principalmente sobre cultura, que considera gênero de primeira necessidade.
Blogs: www.arenascariocas.blogspot.com e estantescariocas.wordpress.com







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