Sob as ondas

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por Cristina Gurjão


De dentro da mais terrível insegurança, embolada na onda mais encaixotada que já enfrentei, com água em volta de todo o meu corpo, tento me salvar. Esta não é a água salgada que embala meu surfar e refresca meu corpo no verão, mas uma torrente poderosa que me afoga aos poucos, ardendo meu nariz, garganta e pulmões.

 

Na minha cabeça surgem os mais conflitantes pensamentos. O que estou fazendo aqui? Quem disse que queria pegar esta onda? Quem me fez acreditar que poderia me equilibrar nesta crista instável e traiçoeira? Percebo na própria pele que não conheço, na prática, os princípios teóricos que tanto repeti mentalmente durante o aprendizado: “Eu sou a água e a água sou eu. Basta embalar o corpo em seu movimento e passamos a ser uma coisa só. Tudo que você quiser ela obedecerá e tudo que ela comandar você realizará”.

Agora não estou vivendo isso. Vejo-me derrubada, derrotada pela força da água. Estou me afogando e isto me dá pânico. Em que falhei? Foram inúmeros anos de certezas, segurança e pretensa fé. Que faço com tudo isso? Como proceder quando nossas teorias falham, na hora h? Não poderia ter caído da prancha! Eu sabia tudo sobre como me comportar em cima de uma onda... Tenho que decidir o que fazer em poucos segundos, não me resta mais tempo, meu fôlego está acabando. Descubro que não há regras para o momento que estou vivendo. Do fundo do meu pânico admito minha ignorância. Não sei nada. Minha prepotência teórica está me afogando. Talvez se puder esquecê-la, sofra menos. Quem sabe se me entregar a esta vivência, sem resistir, aprenda alguma coisa? Minhas forças estão se esvaindo. A única verdade que conheço agora é que se abrir a boca, morro. Vou mantê-la fechada, a praia pode estar por perto.

Assumo o comando do presente. Nada mais importa. Esta experiência se torna minha única salvação e me agarro a ela. Só penso nela. Dane-se tudo que aprendi, ou acreditei! Só existe uma verdade, a que vivo agora. Ela é a minha força. Decido por viver.

Começo a sentir a areia arranhando minhas pernas. Isso é real. Largo mais ainda meu corpo e me entrego. Aos poucos, a areia me cobre e preciso me defender dela. Não me lembro mais da água, agora o desafio vem da terra. Embolo-me nessa lama telúrica, me sinto densa, pesada. Vou sendo arrastada e nada mais posso fazer. A gravidade me deixa no fundo e, simultaneamente, sinto o ar em minha cabeça que se esforça para ficar fora d’água. Estou no raso, não preciso fazer mais nada.

Largada na beira do mar, sem resistências, toda suja de areia, percebo que sobrevivi. De nada me adiantaram os conhecimentos de como me equilibrar nas ondas. Em compensação, agora, sei tudo sobre me afogar... Pensava que era a água que iria me guiar no caminho da entrega e, no entanto, foi a areia que me ensinou o exercício da aceitação. Ganhei mais uma chance da vida. Teorias? Agora não.


Cristina Gurjão

Carioca, jornalista, professora universitária e estudiosa de temas holísticos. Trabalha com astrologia, tarô, cristais, cores e numerologia.

Blog: http://cristinagurjao-universoparalelo.blogspot.com

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Sobre a Anna Ramalho

Anna Ramalho, carioca, tricolor e mangueirense, é colunista e cronista. Na definição do ex-chefe Ricardo Boechat, “o dinossauro do colunismo social”, já que, nos últimos 33 anos, trabalhou com todos os grandes: Zózimo Barrozo do Amaral, Fred Suter, Carlos Leonam, Fernando Zerlottini e o próprio Boechat, alternando-se entre “O Globo”, “ O Dia” e o “Jornal do Brasil”. Noves fora Ibrahim Sued, com quem trabalhou no livro “Ibrahim Sued: 30 anos de reportagem”.

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