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por Rafael Fonseca


BRUXA SOLTA. Estive em Dresden nos últimos dias, e teríamos um concerto da Filarmônica local com Kurt Masur, maestro tão querido dos cariocas e freqüente em nosso Municipal. Dias antes, ele havia tomado um tombo em Paris, no Théâtre des Champs Elysées. Deu um passo em falso ― ao menos assim nos chegou a noticia ― e caiu entre o palco e a primeira fila. Masur, com 85 anos, sofre de Parkinson e vem há muito demonstrando saúde frágil. Com uma fratura no ombro esquerdo, está fora de combate ao menos até setembro.

 

 

A ESTRELA SOBRE. Com o cancelamento de Masur em Dresden, subiu ao pódio o bávaro Markus Poschner, 41 anos. Chance de ouro, aproveitada muitíssimo bem. Poschner regeu com energia e garra as Oitava e Nona Sinfonias de Beethoven. Claro que a Dresdner Philharmonie (FIlarmônica de Dresden) não é a mesma coisa que a Staatskapelle Dresden (essa sim, a grande orquestra da cidade), mas sua condução foi firme e com nuances na marcação de tempo que o rígido e milimétrico Masur jamais faria. Eu gostei muito, e acho que um grande intérprete vem despontando por aí. O brilho da noite ficou por conta do Coro Filarmônico, excepcionalmente bom, e imenso: incluindo muitas crianças, do famoso Philharmonischer Jugendchor, juntos eram mais de 100 vozes!

 

 

BRUXA SOLTA, 2. Dois dias depois, quase um novo susto. Outro decano da regência, o inglês Colin Davis, nome frequente em discos e ícone da interpretação de Mozart e Berlioz, estava pela cidade, justo para comemorar seus 85 anos numa homenagem da Staatskapelle (orquestra antiquíssima, existente desde 1548). No dia anterior à apresentação que íamos assistir, ficamos sabendo que Davis (hospedado no mesmo hotel que nós, o Taschenbergpalais, onde tive oportunidade de falar com ele) havia passado mal nos últimos acordes da Sinfonia n. 40 de Mozart: a obra sequer chegou ao fim, pois músicos e platéia viram o mestro perder os sentidos e foram acudí-lo. Dia seguinte ele regeu a apresentação que vi, sentado num banco alto. Chegou ao fim, mas houve uma hesitação por parte da orquestra após as últimas notas da mesma obra, a Sinfonia n. 40, onde antes ele havia sentido-se mal.

 

 

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO! O dinheiro manda em tudo. Chegamos a Berlim ontem, e fomos a um concerto extraordinário dos 12 Violoncelistas da Filarmônica. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas agora existe essa onda de ópera no cinema, essa popularização estúpida da arte ― cujo pior exemplo é esse falsário chamado André Rieu, que transforma criações sublimes num açucarado cafona e condescendente pra agradar a ouvidos mofados ― e a Berliner Philharmoniker disponibiliza seus concertos ao vivo via internéti. Ótimo, você paga um xis e assiste de casa, no Brasil, em Singapura ou na Bósnia, o concerto em seu computador. Esse lado eu já conhecia. O outro lado eu conto agora a vocês: num desrespeito sem igual, quem pagou o ingresso (e, no nosso caso, viajou para tal) e esteve na famosa Philharmonie em carne-e-osso, dependendo do lugar onde estivesse sentado, teve de lidar com uma camera de tevê dançando em seu campo de visão, caceteando a paciência e desconcentrado completamente a cabeça do cidadão em relação à música! Reparem na foto que eu tirei: vejam a câmera bem na frente entre palco e o setor da platéia onde eu estava; e lembrem-se que ela não ficava estática, mexia-se o tempo todo!

 

 

DIE 12 CELLISTEN DER BERLINER PHILHARMONIKER. Tirando esse porém ― e no meu caso, bem atrás do maldito guindaste da tal câmera, um super porém ― o concerto foi incrível. Tocaram de Fauré e Ravel a Piazolla e Michel Legrand. Obviamente eram sempre arranjos e adaptações, pois a literatura para conjunto de violoncelos é escassa e nosso grande Villa-Lobos foi um expoente máximo com jóias como as Bachianas 1 e 5, ambas para 8 violoncelos, sendo a Quinta (a mais famosa) com uma soprano solista. Eles já gravaram essas obras magistralmente, num cedê que até Jorge Benjor tem! Pirateando total, saquei meu Aifôni do bolso e registrei o bis no qual eles disseram ser Bossa Nova. Eu não identifiquei nada conhecido, verifiquem vocês:

 


P. S. Viram a câmera zanzando na nossa frente? Pois é...


RAFAEL FONSECA

é pesquisador musical, cronista da Anna e organiza viagens musicais.

www.vira.art.br

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Sobre a Anna Ramalho

Anna Ramalho, carioca, tricolor e mangueirense, é colunista e cronista. Na definição do ex-chefe Ricardo Boechat, “o dinossauro do colunismo social”, já que, nos últimos 35 anos, trabalhou com todos os grandes: Zózimo Barrozo do Amaral, Fred Suter, Carlos Leonam, Fernando Zerlottini e o próprio Boechat, alternando-se entre “O Globo”, “ O Dia” e o “Jornal do Brasil”. Noves fora Ibrahim Sued, com quem trabalhou no livro “Ibrahim Sued: 30 anos de reportagem”.

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