Gilda Mattoso

Minha mãe

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por Gilda Mattoso


LIDDY KERR PINHEIRO DE QUEIRÓS MATTOSO

"Tu que foste luz imensa e hoje és eternidade"

(Neide Archanjo)

As primeiras lembranças que guardo de minha mãe são sonoras. Ainda na Lopes Trovão, 106 - Icaraí, Niterói, onde nasci, vejo minha mãe nas suas tarefas domésticas, muito afobada sempre, mas também cantando muito, com sua bonita voz lapidada no coral da Matriz de N. Senhora do Desterro, Quissamã. Foi com ela que tomei gosto por música em geral e em especial pela música brasileira. Com ela aprendi letras complicadíssimas para uma criança, como "Rosa", "Carinhoso" e "Página de Dor", de Pixinguinha, e ainda "Palpite Infeliz", "Último Desejo", "Na Pavuna", "Bodas de Prata", "O Doce Mistério da Vida", "E O Mundo não se acabou" e outras tantas. Também me lembro dela falar em Beniamino Gigli, Renata Tebaldi, Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, o "Cuore Ingrato", "Torna Sorrento", essas últimas, pérolas da canção napolitana cujo conhecimento nós, minha mãe e eu, aprofundamos via Lurdão, minha cunhada querida, com seus saraus de piano e o álbum de Canções Napolitanas, de cuja capa até hoje eu me lembro.... Quem sabe terá sido por isso que vim a trabalhar quase que exclusivamente e há quase 25 anos no ambiente da MPB.

Foi com Liddy também que tomei contato com a poesia. Ela dizia, para nosso espanto, sem tropeçar e inteirinhos "A Caridade e A Justiça" e "O Calvário" de Guerra Junqueiro, "O Caçador de Esmeraldas" de Olavo Bilac e o infalível "Os Cisnes" de Júlio Salusse, que ela dizia ser a história dela com meu pai. Quem sabe tenha sido por isso também que vim a me casar com Vinicius, por cuja poesia (e canção) ela também nutria grande admiração.

Tenho também lembranças gustativas e olfativas dela, com suas receitas únicas: a famosa farofa que não podia faltar em nenhuma refeição, o cheiro da calda fervendo para sua divina torta de chocolate, as lavínias assando, as cocadas secando ao sol, as espumas de chocolate (muito antes de alguém conhecer mousses...), ovos nevados, pudim de claras, a torta de nozes que só acontecia nos Natais. Ah, mãe, como vai ser daqui pra frente? Nunca mais esses cheiros, nunca mais esses sabores, nunca mais a casa materna...

Tive com Liddy uma relação única e diferente da de meus irmãos que cresceram juntos (sou temporã, 9 anos mais nova que minha irmã Ângela que vem logo acima de mim e 20 anos mais nova que Paulinho, meu padrinho e irmão mais velho), tendo sido eu praticamente filha única de pais idosos. Embora muito severa, como o fora com meus irmãos, as questões do afeto, da educação, da disciplina passavam sempre por ela. Tive na infância uma certa "vergonha" dela que era freqüentemente tomada por minha avó, para meu desespero... (minhas amigas de berço, Núbia, Nádia e Katia serviam de parâmetro p/mim e Lúbia, mãe delas, era mais nova que Paulinho, meu irmão... ).

Mas isso tudo passou e já mais adulta nossa relação foi amadurecendo e fui tendo por ela imensa admiração. Por ter sido ela órfã de mãe aos 6 anos, de pai aos 13 e ter sido criada sem amor, Liddy soube fazer desse limão mais do que uma limonada mas uma mousse. Mesmo sendo criada por parentes em ambiente hostil, ela soube se divertir com as criadas da fazenda de São Domingos, com seus primos (com quem ela se relacionou até a morte deles e prosseguiu com seus filhos...) se fartando de andar a cavalo, coisa que a-do-ra-va e de comer frutas no pomar. Além disso, Liddy achou nas freiras alemãs do convento de Quissamã, o amor perdido com a morte dos pais. Eram verdadeiras fãs de suas travessuras como, por exemplo, dar cambalhotas no pasto para assustar o gado... Como Liddy gostava de contar esses e outros casos sem nunca demonstrar ressentimento por ter tido uma infância e adolescência tão difíceis. Tendo se casado quase que sem conhecer direito meu pai, como era hábito naqueles tempos, Liddy foi declaradamente feliz na vida conjugal apesar de muitos apertos financeiros. Viveram os primeiros anos de casados em Macaé onde nasceram meus 4 irmãos (Paulinho, Luizinho, Roberto e Sergio) e onde ela vivia na maior felicidade, perto de suas irmãs Amélia e Nivinha - esta casada com o primo de papai Everardo Ribeiro de Castro - perto do mar, outra grande adoração sua (e minha também) e perto de seus amados "Meu Padrinho" (Jorge Caldas) e "Minha Madrinha" (Clarice Carneiro da Silva Caldas) a quem Liddy amava muito. Esta, era imitada por Liddy com perfeição.... Também creio ter herdado dela um certo dom para imitar pessoas.

Depois foi Ponte Nova, que ela custou a aceitar por ser longe dos seus e do mar (quando contemplava o mar, repetia: "E ainda há quem não acredita em Deus..."). Mas terminou adaptada e fazendo muitos amigos. De lá pra Cataguases foi um tremendo upgrade e lá nasceram Lia e Ângela. Viveram mais de 10 anos em Cataguases, numa imensa chácara, fizeram um punhado de amigos tendo papai sido até prefeito-interventor... Veio Friburgo, onde Liddy dizia ter passado o tempo mais feliz de sua vida e finalmente Niterói onde nasci. Liddy soube formar uma família grande e unida, feita não só de filhos, noras, genro e netos, mas também de sobrinhos e amigos. Ah, como eram tão boas as verdadeiras gincanas organizadas por Luizinho e Henrique, nosso primo (sua viúva Ana Amélia me disse no velório de Liddy que lá se sentia como se estivesse na casa de sua mãe). Liddy soube não só fazer mas também cultivar e manter, ao longo da vida, suas amizades apesar das inúmeras mudanças de cidade que a vida de mulher de engenheiro ferroviário lhe impuseram: vide Alice Peixoto Garcia Justo, Rosinha Taboada, Artemia Parada e, mais adiante, Dolly, Titiva e Dr. Edson, Maria e dr. Walter, Sara e Ocirema, Silvia e Isidro Villas, D. Berta, Dalila e Nelsino, d. Ceres, dr. Francelino, Hocidéa,.... meu Deus quanta gente!

Mãe, hoje nós somos o passado e há uma imensa sensação de abandono dentro de mim. Por isso, quis passar a limpo, resumidissimamente, sua vida tão rica, como um modo de transmitir tudo a minha filha Marina, aos que virão e também aos que não tiveram o privilégio de conhecê-la. É um modo de, postumamente, lhe agradecer por tudo que já está dito acima e ainda mais pelo exemplo de força, de ética, de vitalidade com que você enfrentou suas lutas e atravessou esse século, sempre acompanhando as mudanças com seus olhos azuis bem abertos e com o maior respeito. Valeu, mãe.

 


Gilda Mattoso

 

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Sobre a Anna Ramalho

Anna Ramalho, carioca, tricolor e mangueirense, é colunista e cronista. Na definição do ex-chefe Ricardo Boechat, “o dinossauro do colunismo social”, já que, nos últimos 33 anos, trabalhou com todos os grandes: Zózimo Barrozo do Amaral, Fred Suter, Carlos Leonam, Fernando Zerlottini e o próprio Boechat, alternando-se entre “O Globo”, “ O Dia” e o “Jornal do Brasil”. Noves fora Ibrahim Sued, com quem trabalhou no livro “Ibrahim Sued: 30 anos de reportagem”.

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